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ARTIGO DOM ANUAR
Nossa solidariedade ao povo de Pinhão

Talvez você, leitor, não saiba o que aconteceu em Pinhão, região de Guarapuava, pois a mídia tradicional pouco falou sobre o assunto. Em 1º de dezembro, dezenas de famílias foram despejadas de forma totalmente humilhante e desumana. Destruíram igreja de Nossa Senhora de Fátima, casas e posto de saúde. Isso não se faz. Uso este espaço para registrar nossa tristeza com o ocorrido. Reproduzo a moção pública emitida pela Cáritas: "A intervenção federal foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo pedido da indústria madeireira Zattar, uma das maiores devedoras da União, com altas dívidas junto a Fazenda Nacional. As famílias moravam nas comunidades há mais de 25 anos e viviam na área produzindo alimentos e criando animais. A questão agrária em Pinhão é uma das mais emblemáticas da luta pela terra no Paraná, tendo seus primórdios ainda no início do século 20, no conflito entre posseiros e empresas, em especial a madeireira Zattar, que chegou a região na década de 1940. A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores que já habitavam as terras desde o Brasil imperial. Elas foram expulsas e assim a indústria constituiu um dos maiores complexos latifundiários do Paraná. Estima-se que antes da chegada da empresa quase 2 mil famílias de posseiros viviam em comunidades tradicionais, conhecidas como faxinais. A madeireira chegou a ocupar 80 mil hectares no centro-sul do Estado. Já para os faxinalenses instalou-se uma luta desigual pela titularidade das terras. São 12 acampamentos sem-terra em área de 60 mil hectares e aproximadamente 2 mil acampados. Cumpriu uma ordem judicial injusta, em momento de crise social tão grave no País, com 14 milhões de desempregados. Foram destruídas casas de alvenaria, escola, padaria comunitária e igreja, lugar sagrado de encontro e comunhão. Desalojar famílias, sem sugerir alternativas, é um ataque aos direitos sociais, principalmente aos dos mais pobres, que através de uma luta justa e legítima buscam um pedaço de terra como um caminho para conquistar a dignidade. O governo federal, por meio do Incra, também é responsável por destruir a vida de mais essas famílias. Na semana passada, uma audiência pública foi realizada em Pinhão para tratar dos problemas fundiários que perduram por décadas na região e têm raiz nos conflitos entre posseiros e madeireiras. Apesar do risco de violência contras as famílias, o secretário de Assuntos Fundiários do Paraná, se limitou a informar que havia tratativas de negociação entre o proprietário e o Incra até o ano passado, porém com a mudança no governo federal, a situação estagnou, reduzindo a reforma agrária a um mero processo burocrático, ignorando a existência de seres humanos, a improdutividade do imóvel, o fator político e econômico. Imitando Pilatos, lavou as mãos. Dessa forma, a Cáritas repudia veementemente a violência utilizada contra as famílias em Pinhão, sob as ordens do STF e executado pelo governo do Paraná, assim como a falta de uma política para a democratização das terras. Ao tempo que exige do Incra e do governador do Estado que encontrem outra área na região para minimizar o sofrimento e o constrangimento que o Estado impôs a essas famílias".

Na semana que passou, estive em Curitiba com a comissão de bispos do Regional Sul 2 da CNBB em diálogo com o governador e o Incra. Foram reuniões que resultaram em compromissos de rever todas as decisões. Nós compreendemos melhor a grave situação em que vivem as milhares de famílias assentadas ou acampadas no Paraná. Há muito a ser feito, muitas vidas ameaçadas, muito compromisso pela dignidade e defesa da vida. Vamos orar pelas famílias e autoridades para que encontrem as soluções mais acertadas e evitem toda espécie de violência.

 

DOM ANUAR BATTISTI

Arcebispo de Maringá 

 

Fonte: http://digital.odiario.com/opiniao/noticia/2444736/nossa-solidariedade-ao-povo-de-pinhao/

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